Reflexões, dicas e notícias sobre moda e sustentabilidade

E eu, que pensava que a moda do futuro misturaria algo como  Jetsons com Matrix e Guerra nas Estrelas… Então o futuro chegou sem visuais plastificados e massificados, sem tendências previamente estabelecidas, coroando a individualidade e o retorno à simplicidade.  E preocupar-se com o planeta, com o outro, nunca esteve tão na moda.     

Sobre moda, feijões e china

Mais uma edição do São Paulo Fashion Week. E, tal qual final de campeonato de futebol, para nós, profissionais da área, o encerramento do maior evento de moda da América Latina deixa esse gostinho de balanço final, no melhor estilo dessas mesas redondas esportivas, sabe? E me aventuro a compartilhar com vocês (despretensiosamente) minhas impressões e reflexões sobre o atual cenário da moda.

Ouvi muitas críticas sobre essa edição do evento. E, confesso, saí alguns dias da Bienal meio cabisbaixa, quase concordando com Ronaldo Fraga em sua polêmica afirmação que “a moda acabou”… Mas também vi coisa lindas, inspiradoras –  sem resquícios de “déjà vu” das passarelas internacionais; globalizadas mas com nosso DNA.

Look Fernanda Yamamoto. Foto: Divulgação

Lino Villaventura. Foto: Divulgação

Desfile Neon. Foto: Divulgação

Hoje, lendo o jornal Folha de São Paulo, duas manchetes me chamaram a atenção. A primeira: “Brasileiros gastam US$ 21 BI no exterior”. Pula a página: “Importação de produtos típicos dispara: perda de competividade chega a produtores de coco e óleo de dendê; país comprou até feijão chinês em 2011″. UAU!

E, você pergunta, o que isso tem a ver com a moda? Tudo! Os brasileiros nunca viajaram tanto e, consequentemente, compraram tanto fora do país. Se não bastasse a concorrência interna, imensa, a carga tributária, imensa, os encargos trabalhistas, imensos, quem faz moda hoje no Brasil também tem que lidar com a concorrência externa — essa não só imensa mas também desleal. Porque não temos como competir com os preços praticados por tudo que é feito na China (não importa em que continente seja comprado!).

Já estamos, segundo a matéria publicada na Folha de São Paulo de 25/01/2012, importando até feijão e café — alimentos que produzimos e fazem parte da nossa cultura. Em contrapartida, estamos exportando outra riqueza: clientes! Somos, segundo pesquisas,  os estrangeiros que mais gastam atualmente em Nova York.

E não é só porque é mais barato não… Grifes têm o seu valor em qualquer lugar do mundo — somos nós que validamos o valor de uma peça de grife internacional (afinal, ela vem com o status embutido) e renegamos preciosos criadores que temos por aqui.

A moda brasileira hoje precisa de dois grandes incentivos. O primeiro, sem dúvida, do governo, minizando impostos e ajudando a nossa indústria a se tornar cada vez mais competitiva — interna e externamente. A segunda está em nossas mãos. Ou melhor, no nosso olhar: atentar para muitos trabalhos belíssimos, personalizados e cheios de estilo próprio que temos por aqui — e esses, meu caro, não tem como entrar na linha de produção chinesa…

André Lima. Foto: Divulgação

André Lima. Foto: Divulgação

Tudo novo de novo

Para começar o ano nada melhor do que uma boa dose de inspiração. E inspira ver criatividade a partir do que seria descartado; surgir beleza daquilo que  ”já era”. Reinventar é a prova de é possível fazer tudo novo, de novo.  Não só com objetos e coisas mas, principalmente, com a gente, com a  nossa vida. Um ano cheio de ”reinvencionices” para você!

Fotos tiradas durante pesquisa na Europa

Dos galhos das árvores recolhidos nascem as biojóias da lisboense Paula Vieira

 

A estribaria se reinventa em loja descolada (e linda!)

 

Se reinventar pode ser também se abrir para novas possibilidades como... usar meia-calça fina!

Sim, as meias-calças finas voltaram! (logo, um post sobre esse revival por aqui!)

 

Assumir certas ruguinhas (com elegância!) pode exigir uma boa reinvenção interna...

 

De renegadas a "in": caixas de feira ganham a vitrine da marca de moda espanhola moderninha...

 

...e viram base para a poltrona sustentável supermoderna

 

E aqueles potes de vidros sem graça, quem diria, podem dar um efeito cheio de graça em sua cozinha ou sala de jantar?

 

Nas mãos do escultor asiático pregos inutilizados se transformam num ouriço (que, se não fosse o peso, ah eu levava!)

 

Ferro velho é a matéria-prima desta coruja inusitada. Sim, tudo se transforma...

Obrigada!!!

Que nós mulheres e a moda vamos ter sempre um caso de amor, ah isso vamos!!! Mas pode ser uma paixão saudável,  daquelas que faz bem pra autoestima e para a alma. Daquelas que trazem benefícios — e não as dores das paixões compulsivas; dos remorsos pós-atos.

E é uma delícia ter a oportunidade de conversar sobre isso com mulheres de todo o Brasil, o ano inteiro, em palestras e agora também através das consultorias no programa Mais Você. Ensinar a se valorizar — e, de quebra, a comprar  com consciência. A otimizar o guarda-roupa e, de quebra, a fazer bom uso de tudo o que se tem.

Agradeço a cada parceiro, cliente e colaborador que este ano tornou isso possível! E a VOCÊ que nos deu o prazer de sua companhia! Boas festas!!!

Petit h: Hermès expõe peças feitas a partir de reutilização

Por Ana Paula Freitas*
 
Uma das mais tradicionais marcas de luxo francesa resolveu dar mais um passo em direção a sustentabilidade e reutilizar suas sobras: couros; tecidos; porcelanas com pequenos defeitos — tudo pode se transformar em peças originais e belíssimas.

Quem esta de passagem por Paris este final de ano, deve visitar a loja Hermès da Rue de Sévres e conhecer a coleção « Petit h – Objetos Poéticos não Identificados ». A idéia surgiu de Pascale Mussard, mais conhecida como aquela que sempre diz  “não-vamos-jogar-fora-pode-ser-que-um-dia-a -gente-precise” e que faz parte da sexta geração da familia Hermès. Ela convidou vários artistas que, juntamente com os tradicionais artesãos da marca Hermès recriaram, reutilizaram as sobras de materiais nobres e deram vida a novos objetos.

Logo na entrada da exposição a grande girafa de couro chama a atenção pelo trabalho realizado: em seguida vemos os famosos “carrés”, lenços de seda Hermès que se transformaram em colares; xícaras de porcelana em lâmpadas de mesa… Todas as peças são exclusivas e estão à venda !

Foto de Coco Amardeil

Coleçao Petit h até o dia 31 de dezembro – Hermès, 17 Rue de Sévres 75006 Paris França

Na foto: Cadeira de Charles Kaisin; girafa  de Marjolijn Mandersloot; cabide de Mathieu Bassée; vasos de David Pergier e Frédéric Sionis;  recipientes de Alice Cozon; moinho de Mickaël Orain

* Ana Paula Freitas, especialista em moda e sustentabilidade pelo Institut Français de la Mode, mora em Paris há mais de 10 anos e é uma grande amiga de infância.

A morte da moda?

Esta semana o mais poeta dos estilistas, Ronaldo Fraga, declarou em carta que ”a  moda acabou”.  A frase contundente não apenas repercutiu como nos fez pensar: a moda acabou?

Ronaldo,  como poucos, você sabe o poder de comunicação da moda. E, como poucos, soube também usar lindamente esse poder a favor do que acreditava, como no histórico desfile a favor do Rio São Francisco.

Desejo que tenha mesmo se encerrado o uso da moda de maneira polêmica para se vender roupa — esquecendo-se que, mais do que vender roupas, vende-se ideias que invariavelmente  afetam principalmente os mais suscetíveis: adolescentes e jovens. Que fique enterrado modismos como o “heroin chic”, para todo o sempre…

Campanha publicitária da marca Sisley nos anos 90

Que se acabe também a moda que escraviza — tanto aquela que faz ‘vítimas’ no sentido do vício da compra compulsiva, quanto aquela que é feita em oficinas clandestinas, por pessoas escravizadas no sentido mais literal da palavra.

Imagens de oficina autuada por trabalho escravo, contratada pela marca Zara

Moda é comunicação — e reflete os valores de seu tempo. Que renasça uma nova moda, que use o seu poder de difundir ideias para  transmitir os bons valores que a sociedade atual tanto anseia. Uma moda engajada, socialmente justa e ambientalmente equilibrada.
Não, a moda não acabou, ela apenas está de mudança…                
 

História da moda no Brasil: nossa sugestão de livro para presentear (ou se presentear!)

Conheci o professor de história da moda João Braga assim que comecei a trabalhar na Editora Abril, na década de 90. Melhor conhecedor do assunto no país, sempre foi nosso “entrevistado oficial” quando precisávamos de um consultor para tirar dúvidas de moda históricas — ou “homéricas”. Não podia deixar passar a oportunidade de aprender muito com ele — e assim o fiz, em seus cursos, na época na FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado).
 
Em meio a buscas de presentes de natal lembrei-me do ótimo livro de João Braga e Luís André do Prado, “História da moda no Brasil” (Pyxis Editoral), leitura imperdível para quem gosta de moda; trabalha com  moda ou simplesmente quer levar na bagagem de férias um livro delicioso que  desvenda a moda nacional e, inevitavelmente, nossa cultura.  Porque para se construir o futuro é preciso conhecer o passado…Fica a dica!    
 

Nossa sugestão de livro para presente do ótimo e querido prof. João Braga

Era garrafa, virou árvore!

Numa época em que o lixo se tornou um problema global me empolga ver as possibildades artísticas e criativas feitas a partir de resíduos. E, se ainda não enfeitou sua casa com uma árvore de Natal ou estava em busca de uma inspiração sustentável, aqui vai uma árvore incrível feita a partir de reutilização de garrafas de vidro — que você pode até substituir por pet. Que tal?

Árvore de natal do Centro Cultural Belém, em Lisboa, feita a partir de garrafas de vidro.

Meu caso de amor — e estilo — com a moda sustentável

Durante todo este ano, em palestras voltadas a estudantes de moda, ouvi comentários de que a moda feita sob uma premissa mais sustentável ”tem sempre um estilo riponga”. Como que se os simpatizantes da causa sustentável tivessem parado no tempo e conservado o estilo hippie –e nada chique, se é que me entende!

Com certeza isso não passa de um estereótipo:  sempre que você me vir, pode apostar que estarei vestindo a “camisa” da moda sustentável… E provando que dá para conciliar estilo, sofisticação e sustentabilidade.

Olha só uma pequena amostra!

Com colar feito de plástico reutilizado Maria Lixo: pura modernidade!

Com as biojoais sofisticadas da designer brasiliense Suzana Rodrigues

 

Com colar da Mãos da Terra, em matéria para o programa Mais Você

 

No Espaço Moda do Futuro, com colar Mãos da Terra, ao lado de Adriana Marques

 

Ao lado da decoradora e amiga Letícia Alencar, em coquetel em que usei colar de coco recortado

Estilo, compromisso socioambiental e viabilidade comercial

Sou uma entusiasta da difusão da sustentabilidade pela moda. Creio ser possível aliar estilo e compromisso socioambiental. Mas possível não significa fácil… E um dos principais elos do significado de sustentabilidade, o ”economicamente viável” do tripé ambientalmente correto e socialmente justo talvez seja o mais difícil de equilibrar quando se decide enveredar pelos caminhos da moda sustentável.

Neste último final de semana nasceu o Coletivo Brasil, união de 20 marcas com os mais diferentes estilos e tamanhos que, em comum, optaram por fazer moda sob uma premissa mais sustentável. Algumas marcas já são maiores e possuem estrutura mais profissional. Outras estão começando. Algumas marcas já conseguiram equilibrar sustentabilidade e estilo. Outras, precisam ainda aprimorar seu estilo, de modo a se tornar cada vez mais desejável, e assim, economicamente viável.

Certamente há muito o que ser feito mas creio que o Coletivo Brasil já deu o primeiro –e talvez mais difícil — passo: se organizar para mostrar novas possibilidades criativas, sintonizadas à epoca que vivemos. Como a união faz a força, a troca de experiências sem dúvida colaborará para o crescimento de todos. E para que todos os elos do tripé da sustentabilidade se tornem realidade para cada um desses criadores da moda do futuro…

Fotos: Paulo Fernando,publicitário, criador do site Comunidade de moda e, como eu, colaborador voluntário do Coletivo Brasil

                                            Look  Anna Marcolina e bolsa Helicônia

Detalhe dos acessórios feitos com resíduos de tilápia da Helicônia

 

  Biojoia da idealizadora do Coletivo Brasil, Patrícia Moura, e look da pernambucana 2Primas

Tiê Moda Ecológica e bolsa Le Reciclè

 

Acessório de cabeça Maria Ribeiro

 

Irmãs Green

 

Abaixo: Look da Lírio Lê

Coletivo Brasil

A ideia da designer de biojoias pernambucana Patrícia Moura era simples : organizar um coletivo com grande parte dos bons criadores de moda sustentável nacionais e unir forças para divulgar o trabalho de cada um, apresentando-os na forma de um catálogo; desfiles e exposições. Agregadora como poucos, Pat Moura foi unindo designers e estilistas de todo o Brasil e profissionais engajados que voluntariamente poderiam colaborar com o Coletivo Brasil. E nem preciso falar que topei na hora o convite da já amiga de longa data Patrícia para atuar como consultora voluntária.

O que é simples, como sabem, ganha ares complexos quando envolve muitas pessoas, cada qual com suas ideias, visões e maneiras de trabalhar. E todo trabalho voluntário e sem fins lucrativos, no qual se cria sem recursos, se torna um desafio ainda maior para todos os envolvidos. Mas para surpresa – e alegria geral — em menos de 5 meses o abstrato se tornou concreto: nessa próxima semana, no evento de moda pernambucano Moda Recife, o Coletivo Brasil será lançado com um desfile e um catálogo virtual.

A necessidade de se investir em estilo, qualidade e profissionalização será debatida numa mesa redonda com a presença das criadoras pernambucanas Cris Ballari, da Brilac;  Mayara Pimentel, da marca 2Primas; Prazeres Accioly e Patrícia Moura, além do publicitário paulistano Paulo Fernando, da Comunidade de Moda.

Que o Coletivo Brasil consiga cumprir o seu propósito de tirar a moda sustentável de “nicho” e mostrar que para a moda do futuro se fazer presente só basta querer — e fazer uma moda conectada com a realidade do nosso século e do nosso planeta.

COLETIVO BRASIL – Moda Sustentável

 Sustentável,adj. que se pode sustentar, capaz de se manter mais ou menos constante, ou estável, por longo período”. (Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa)

            Mesmo parecendo redundância, esse conceito quando aplicado em relação à atuação humana frente ao ambiente em que vive é plenamente compreendido como um ideal a ser alcançado. Nesse contexto, entendemos que sustentabilidade é a capacidade de um indivíduo, grupo de indivíduos ou empresas e aglomerados produtivos em geral; têm de manterem-se inseridos num determinado ambiente sem, contudo, impactar violentamente esse meio. Assim, pode-se entender como a capacidade de usar os recursos naturais e, de alguma forma, devolvê-los ao planeta através de práticas ou técnicas desenvolvidas para este fim. A sustentabilidade nos conceitos atuais envolve também relações trabalhistas, direitos humanos, meio ambiente e, entre outros segmentos, a moda.

Baseado nesse conceito nasceu o Coletivo Brasil – Moda Sustentável, movimento nacional de vanguarda, que visa promover e popularizar, dentro e fora do Brasil, a moda sustentável brasileira e seus princípios socioambientalmente éticos.

 Recife, capital nordestina que é referência brasileira na produção de moda sustentável, foi escolhida para sediar o lançamento nacional do movimento e para tanto, o Moda Recife, que nesta quarta edição abre os braços para a moda sustentável, será palco desse lançamento e assim, além de apresentar o primeiro desfile do Coletivo Brasil, o evento pernambucano abrirá a sua segunda noite com um bate papo em mesa redonda formada por profissionais com reconhecimento nacional, ligados a moda brasileira: Paulo Fernando, publicitário apaixonado por moda, que está à frente do portal Comunidade Moda irá se juntar a criadores pernambucanos para falar de moda socioambientalmente correta. Além disso, o grupo de marcas pernambucanas integrantes do Coletivo Brasil – Moda Sustentável, composto por Patrícia Moura, Tiana Santos, Cristina Balari, Maria Ribeiro, 2primas e Prazeres Accioly estará apresentando exposição coletiva no hall do shopping Paço alfândega, onde acontecerá o evento.

Marcas que compõem o Coletivo Brasil:

SERÁ O BENEDITO; TIÊ MODA ECOLÓGICA; SORGIACOMO; IRMÃS GREEN; COLETIVO VERDE

ECOTECE; JÓIAS DO PANTANAL; HELICÔNIA; LE RECYCLÉ; LÍRIO LÊ; MARIA LIXO BAGS;

MÃOS DA TERRA; COISAS DE MARIA;ANNA MARCOLINA; MULHERES DE FIBRA DE TRINDADE;

ACESSÓRIOS MARIA RIBEIRO; 2PRIMAS; PRAZERES ACCIOLY; BRILAC; TIANA SANTOS

PATRICIA MOURA BIOJOIAS

Apresentando: BIO ARTES (Associação apoiada por Patrícia Moura)

Serviço:

Moda Recife – Paço Alfândega – 25 e 26/11/2011

Coletivo Brasil – coletivobrasil@gmail.com / Twitter: coletivobr

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Danielle Ferraz é jornalista e consultora de moda. Saiba mais em ABOUT.

@modadofuturo

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